POLÍTICA

Deputado elogia estudante que gritou com professora em palestra; educadora lamentou o caso

O deputado Claudinei Lopes (PL) usou suas redes sociais para divulgar um vídeo em que enaltece um estudante de Direito que interrompeu aos gritos a palestra de uma professora da UFR, ameaçando chamar a polícia para prendê-la por ter feito críticas ao presidente Jair Bolsonaro. A professora, que já deu aulas para o deputado, lamentou o caso e vê na situação exemplos de machismo, racismo e autoritarismo.

No vídeo divulgado hoje (24), o deputado aparece visitando a casa do estudante e diz que fez questão de parabeniza-lo pessoalmente pelo ‘firme posicionamento’ contra a palestrante, durante evento que fez parte da Primeira Semana de Direitos Humanos promovida pela subsecção da OAB em Rondonópolis.

Na gravação o parlamentar fala como se estivesse mandando uma mensagem ao próprio presidente Jair Bolsonaro.

“Ele não aceitou uma abordagem feita dentro da faculdade em um evento que segundo as informações que recebi foi promovido pela OAB de Rondonópolis. A palestrante misturou as coisas (…), chegando a denegrir a imagem do nosso presidente imputando homicídio e falando que nosso presidente seria um assassino”, diz Claudinei em um trecho do vídeo.

O deputado também explica o que, na sua opinião, deve ser o papel de um palestrante ou educador.

“Ele (o estudante) ficou indignado com toda razão. Acho que seja professor ou palestrante, ele não pode dentro de uma sala de aula ou qualquer instituição de ensino partir para a ideologia e partir para apoio político. Tem que ministrar sua palestra e dar sua aula de forma objetiva e acabou”, afirmou.

OUTRO LADO

A professora Priscila Scudder, alvo da agressão, tem doutorado em Educação, Pós-doutorado em Integração Contemporânea da América Latina e é docente do programa de pós-graduação no departamento de História da Universidade Federal de Rondonópolis.

Intelectual reconhecida nacionalmente, ela também integra Associação Brasileira de Pesquisadoras (e) Negras (os) e recentemente foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas da UFR.

Nos eventos em que participa Priscila costuma fazer uma agradecimento aos antepassados, incluindo o pai que morreu vítima da Covid-19. E foi justamente ao criticar a conduta do Governo Federal e do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia que ela foi interpelada pelo estudante. O detalhe é que outros palestrantes também fizeram críticas semelhantes sem sofrer retaliações.

“O mundo não me surpreende muito, já que observo a violência ignorante de gente racista, machista, transfóbica, elitista, colonialista, que acredita ter direito de exercer poder, dominação, controle e exploração sobre outros”, disse ela sobre a interpelação na palestra.

Também pelas redes sociais Priscila comentou o vídeo exibido pelo deputado Claudinei Lopes. Ela disse que as imagens foram gravadas e divulgadas sem seu conhecimento ou autorização. Também manifestou surpresa com a atitude do parlamentar.

“Um detalhe que me intriga é que este deputado, que já foi meu aluno de especialização, que mantivemos uma relação didático-pedagógica amistosa durante o breve tempo de convivência em sala de aula, não estava presente na palestra em questão. Mesmo assim chegou a uma conclusão que julga plausível”, lamentou.

“Parece que os políticos de direita, a maioria homens brancos, entendem que o direito à liberdade é mais um privilégio seu, que não estão sujeitos às críticas, que os dirigentes do Estado ocupam um Olimpo inatingível e que os cidadãos não devem participar das discussões que interferem em suas vidas, mesmo quando se refere à perda de um pai, ou ao genocídio da juventude negra”, completou.

Em conversa com a redação a professora considerou ainda que suas críticas são semelhantes às conclusões da CPI criada pelo Senado para apurar a conduta do Governo Federal diante da pandemia de Covid-19. Ela também não descarta a possibilidade de recorrer ao Poder Judiciário contra as pessoas que estão usando o caso para detratá-la publicamente.

Até o fechamento desta edição nem a universidade e nem a subsecção da Ordem dos Advogados do Brasil em Rondonópolis haviam se pronunciado ou apresentado um pedido formal de desculpas à educadora.

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