A biografia da futura jazida de fosfato de Mato Grosso

O Governo de Mato Grosso no último dia 1° de setembro ao anunciar a descoberta do depósito bi-mineral de ferro e fosfato no município de Mirassol D'Oeste deixou escapar um pouco da história de como essa descoberta se processou. A urgência do anúncio da descoberta se fez diante de sua magnitude, de sua importância sócio-econômica para o futuro do Estado e mesmo do País, que poderá deixar de ser importador de fosfato para – quiçá – exportador desse importante componente dos insumos agrícolas.
Os depósitos de ferro, estimado em 11 bilhões de toneladas, com teor de 41% e o de fosfato, com cerca de 428 milhões de toneladas, com teor de 6%, segundo dados do relatório preliminar da CPRM – Serviço Geológico do Brasil, foram descobertos meio que por acaso, se assim pode-se dizer – mas, nada é por acaso, senão fruto do trabalho e determinação de algumas pessoas.
As fácies ritmicos¹ foram percebidos pela primeira vez, em maio de 2005, quando o geólogo Gercino Domingos da Silva, pós-graduado em impactos ambientais e mestrado em recursos minerais, participava do projeto de pesquisa sobre calcário. Essa pesquisa sobre calcário, do convênio CPRM/Metamat/Sicme, resultou na publicação do trabalho “Avaliação de Rochas Calcárias e Fosfatadas para Insumos Agrícolas do Estado de Mato Grosso”, em 2008.
Gercino Domingos, durante a visita in loco quarta-feira (09.09), contou que, como é um geólogo à moda antiga, “que gosta de conversar com as pedras”, ao andar pela região da Fazenda Ratel à margem do Rio Jauru, notou “essas rochas diferenciadas” na Serra do Caetés. No ano de 2007, ao iniciar o curso de mestrado, ele optou em trabalhar em sua dissertação de mestrado, sob a orientação dos doutores Jackson da Paz e Gerson Sais (ambos da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT), essa região do Estado.
As fácies ritmicos foram percebidos pela primeira vez, em maio de 2005, quando o geólogo Gercino Domingos da Silva, participava do projeto de pesquisa sobre calcário
Começaram os estudos de análises de 32 amostras das fácies rítmicos. Essa grande amostragem foi levantada em novembro de 2009 pelos geólogos Gercino Domingos e Felicíssimo Borges em toda a região da Serra do Caetés, o Morro das Fazendas Rapel, Porto Seguro, Bahia Grande e Bahia da Capivara, Estância Valpramar e morro da Barranqueira. Essas amostras constataram os teores de ferro entre 14,8% a 62,4% e teores de fosfatos entre 0,48% a 5,47%. Estava assim constatado o potencial de um possível depósito de fosfato e ferro na região.
“A descoberta desse depósito foi uma grata surpresa”, afirma. Segundo o geólogo, a região que estava mapeada desde a década de 70 com outro tipo de rocha. “Eu tive a felicidade de descobrir que não é arenito mais um rítmico com certo teor de ferro e fosfato”. Essa descoberta – na parte acadêmica – vai atrair pesquisadores que devem estudar a origem dessas rochas. Gergino Domingos diz que não conhece na literatura nenhum depósito desse tipo.
Quanto aos benefícios econômicos eles são inumeráveis. “Quando começar a produzir fosfato Mato Grosso não vai mais precisar importar tudo de fora. Quando se está importando, está mandado divisas para fora. Como Mato Grosso é o maior produtor de grãos – e vai continuar sendo – e como temos grandes áreas de pastagens degradadas; cada vez mais precisamos usar insumos agrícolas, principalmente o nitrogênio – fosfo – potássio (NPK)”, considerou o geólogo.
Fosfato Brasil – Quando o Governo Federal lançou o programa Fosfato Brasil, Mato Grosso, segundo o secretário de Minas e Energia Pedro Nadaf, já estava preocupado com o abastecimento de fosfato e por isso foi um dos primeiros estados a aderir ao programa federal. O projeto Fosfato Mato Grosso tinha como foco a área do Planalto da Serra/Araras, mas não incluía a Serra do Caetés. Essa região foi apresentada aos técnicos da CPRM – Serviço Geológico do Brasil pelo geólogo Gercino Domingos.
O objetivo do projeto Fosfato Brasil é o de aumentar as reservas brasileiras e a pesquisa é realizada com aplicação de métodos de prospecção geofísica, e mapeamento aspectral, prospecção geoquímica e estudos laboratoriais e tecnológicos.
O consumo de fertilizantes cresce de forma significativa em todo Brasil e mais especificamente em Mato Grosso – o maior produtor de grãos do País – com participação importante na balança comercial.
A preocupação do Governo Federal quanto a questão do fosfato é devido a sua criticidade. O Brasil é dependente externo no suprimento desse insumo decisivo e estratégico para a nossa agricultura, na qual o fósforo não tem substituto. Essa dependência externa provoca uma indesejável vulnerabilidade à nossa agricultura, além do déficit crônico no comércio exterior dessas “commodities”.
Quando a CPRM iniciou, em 2009, o mapeamento da área definida como Projeto Planalto da Serra, região a noroeste de Cuiabá (MT), visando o estudo das características das rochas ultrapotássicas, dimensões e potencialidades, a expectativa era muito grande, porém não alcançava o “teor” da descoberta. O relatório preliminar mostra uma área de 43 quilômetros quadrados. Segundo os técnicos, "um depósito de porte internacional, pela quantidade e pelo teor do bi-fosfato-ferro". Tanto que o governador Silval Barbosa, na hora do anúncio, chegou a fazer uma analogia com o Pré-Sal, pelo potencial econômico. Mato Grosso atualmente consome 610 toneladas/ano de fosfato. O depósito, calculado pelos técnicos da CPRM, equivale a 700 anos de consumo do Estado de Mato Grosso.
Fonte: SECOM (crédito fotos:Ednilson Aguiar)