POLÍTICA

25 anos de Nova República

Carlos Américo Bertolini (*)

Estamos a poucos dias da comemoração dos 25 anos da Nova República. Para aqueles que tem hoje idade acima de 45 anos foi facultada a condição de testemunha de tais acontecimentos, cuja data símbolo foi o dia 15 de janeiro de 1985, oportunidade em que presenciamos a eleição indireta de um dos personagens mais populares da história republicana recente.
Embora a contagiante alegria e a elevada expectativa face ao novo regime tivessem data marcada para receber duro golpe: ao final do dia 14 de março de 1985 recebemos a notícia acachapante de que o presidente eleito fora internado. Uma série inacreditável de eventos nos conduziu, como espectadores estarrecidos diante da crueldade do destino, de uma internação para rápida cirurgia ao falecimento do novo paí da pátria, anunciada em 21 de abril.
A imagem de Tancredo Neves que chega até hoje é fruto da ação de inúmeros agentes políticos e sociais, de instituições várias, de governos estaduais e de investimentos acadêmicos, como pesquisas, seminários, encontros, além dos esforços da imprensa para que tal período histórico não seja soterrado pela diária avalanche de “informações” valiosíssimas…
Vale destacar que a Nova República tem crédito bem menor do que os protagonistas que conduziram a vitória civil sobre os intentos de continuísmos – sejam os representados pela ala de Andreazza ou pela ala malufista. Assim, para aqueles que compartilham da bandeira de transformar o Brasil em democracia efetiva e participativa, o regime atual significou uma inconteste vitória face às características do período imediatamente anterior. Mas será o mesmo argumento válido face às expectativas desencadeadas antes da assunção de José Sarney à presidência?
Tal linha de raciocínio nos leva a refletir sobre a qualificação de nossa democracia hodierna. Será que nosso regime atual pode ser classificado como uma democracia digna deste nome? A propaganda institucional, seja aquela com verba proveniente dos orçamentos ministeriais e demais organizações capitaneadas pelo poder executivo, seja aquela afinada com o diapasão governamental, mas proveniente de recursos originados pela venda direta de produtos e de serviços aos consumidores postula – a exemplo do marketing politico travestido de ufanismo – que tudo vai muito bem em nosso país. A propaganda eleitoral, ao arrepio da legislação específica, promovida pelo Banco do Brasil, Petrobras e BNDES nos dizem que “o futuro já chegou”, significando que o Brasil deixou de ser apenas o país das expectativas vindouras para se constituir em país do desenvolvido hoje mesmo.
Este apelo ao imponderável e ao fantástico pode nos apesentar uma outra vertente para reflexão: será leal com o contribuinte e com o consumidor a divulgação expectativas alavancadas pela obsessão com a auto-estima? Perguntamos aos leitores mais experientes: será que a Nova República ficou tão distante das promessas divulgadas nos anos de 1980 por falta de propaganda, ou mesmo por falta de crédito a ela atribuído pelos cidadãos que a sustentam com os impostos que pagaram?
Será que o sucedâneo de São Tancredo Neves não foi atendido, nas várias vezes em que pediu apoio popular às medidas para conter a hiperinflação? Por acaso faltou entusiasmo nos dias iniciais do nefasto Plano Collor, o maior roubo impune da história republicana, o maior descalabro dos governantes despreparados, superando, inclusive, a bagunça e a improvisação do período do “encilhamento”? Os contribuintes, analogamente, foram para as ruas pedir o impedimento do presidente Fernando Henrique Cardoso, quando ele nos conclamou a abrir mão da correção da tabela de descontos da declaração de rendimentos de pessoa física, que condiciona o volume do imposto de renda retido na fonte (IRRF)? Em todas estas oportunidades, fomos tratados como otários. Nem desculpas recebemos, nem mesmo quando a casa veio abaixo em 1999, vítima do “populismo cambial”, nem agradecimentos referentes aos esforços extraordinários daqueles que atribuíram aos governantes algum crédito.
Nossa Nova República tem ainda muito a cumprir para ostentar a designação de democracia plena. Mas os leitores mais experientes, cansados de ouvir promessas de campanha inspiradas pelo elevado compromisso cívico dos respectivos marketeiros, vão afirmar que só um ingênuo seria capaz de acreditar no messianismo dos candidatos que se sucederam até o atual salvador da pátria.
Nossa democracia tem bem pouco a oferecer, além de benefícios imaginários e de fantasia paga pelo bolso do contribuinte e do consumidor. Mas é esta a maior marca definidora da democracia hodierna. A política se metamorfoseou na prática da ilusão, no estímulo às fantasias dos eleitores e nas suas equivocadas crenças de que o candidato tucano ou o petista serão capazes de cumprir aquelas promessas que lhes convém. Fascinados pelas benesses futuras, os cidadãos acabam deixando de lado os juízos críticos e as cobranças de meios que seriam empregados para se atingir os céus ainda na vida terrena – por exemplo, os US$ 400 de valor do salário mínimo (seiscentos e oitenta reais); ou do status de parceiro comercial em condições de igualdade com os EUA, para lembrar aquele grande presidente que foi chamado de “viúva de Bill Clinton”.
Nossa feliz república se destaca mais pela continuidade do atraso e do embuste do que pela certeza de que o futuro será melhor. A matriz de toda essa merecida bonança está condicionada pela transição para a atual democracia. De um lado, um mártir da democracia, cuja herança etérea e imaculada foi desfigurada pelas mesmas justificativas apresentadas pela “confraria do consenso” dos oito anos de flagelo tucano-pefelista. Tal período de modernidade globalizadora foi secundado por um novo salvador da pátria que, por sua vez, mudou o nome do comportamento abjeto para “governabilidade a qualquer custo”, sustentado pelo que há de mais arcaico e de apodrecido no espectro politico nacional – Lula estava certo quanto às características de seus adversários, só que nas campanhas anteriores à sua vitória.
Entre um mártir santificado pela tradição mineira e um personagem de anedotas, Justo Veríssimo, circula a virtualidade de nossa democracia do futuro. O sagaz Chico Anísio jamais iria imaginar que o seu personagem, criado durante a ditadura, fosse chegar à presidência. Mas a criação suplantou os mais improváveis pesadelos de seu criador; está aí como participante prestigiado da “base de sustentação do governo”.
Justo Veríssimo era o personagem que representava o politico profissional nordestino e que tinha um bordão bastante peculiar: “pobre, eu quero que se exploda! Abre um buraco, joga tudo dentro”. A caracterização física do personagem não nos deixa dúvida sobre sua atualidade, com seu impagável bigodinho década de 1920 e seu apreço em roubar o contribuinte, digo, em reproduzir privilégios para correligionários, cabos eleitorais, familiares e … aliados políticos da base de sustentação do governo.
Já que os tempos são de farra antecipada com dinheiro alheio e de aberto delírio carnavalesco, vamos também entrar no clima. Nossa democracia é a melhor do mundo, nossos políticos profissionais e nossos governantes estão acima de qualquer suspeita ou de crítica, ou de denúncia de corrupção e não existem melhores, mesmo em nosso país, e quem disser algo em contrário é traidor, subversivo (lembram da ditadura militar?), sabotador quinta-coluna (ditadura do Estado Novo) ou então estrangeiro anarquista (Primeira República).
São Tancredo e Justo Veríssimo são pálidas figuras do ancestral século 20, se comparadas às maravilhas tecnológicas, digitais, virtuais e binárias que se apresentam neste insuperável século 21. Pela caminho que estamos trilhando, logo mais nosso país será conhecido como “ilha da fantasia”. Aquele país que será capaz de apresentar ao mundo prodígios grandiosos: o latifundiário socialista, o banqueiro solidário com seus empregados, o executivo corporativo nacionalista, o fazendeiro sojicultor ambientalista, o pecuarista ruralista pacifista, o comerciante com consciência trabalhista, o parlamentar altruísta e escravo do bem público e, a mais brilhante culminância de nosso sucesso, o governante incorruptível e avesso à sabedoria oracular dos marketeiros.
Por isso é que nestes tempos cheios de seriedade e de pleno senso crítico, vale a pena nos lembrarmos de apreciar os amigos americanos, concedendo-lhes a oportunidade de se expressar sobre nosso futuroso país do inconteste reino de mil anos de prosperidade:
“O Brasil não tem cabeças tentando formular politicas alternativas. O que há é um vácuo intelectual.”
Esta frase foi estampada na revista Veja, edição 1645, ano 33, nº 16, 19 de Abril de 2000, página 11, de autoria de Thomas Skidmore, iminente historiador americano.
Ainda bem que nossa cabeça está cheia de “slogans” bem maneiros, ainda bem que acreditamos em Papai Noel, rezamos para o anjinho da guarda do nosso pc e ainda bem que todos nós dizemos o tempo todo: “Brasil Grande, tô ligado!”
Vôte, Skidmore!!!

Carlos Américo Bertolini
*Professor do Departamento de História/ICHS/UFMT e Mestre em Educação pelo IE/UFMT.
Email: cabertolini@gmail.com

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