Luís Otávio Bau MacedoOPINIÃO

O Apocalipse da Crise Alimentar

Apocalipse é uma expressão bíblica que significa "revelação", no sentido de indicar fatos futuros ainda desconhecidos ou omitidos.  A crise alimentar global, nessa perspectiva, revela traços importantes para a elucidação dos desafios ao século XXI. Proponho discutir essa temática não somente como uma condicionante conjuntural, oriunda do conflito na Ucrânia, ou passageira, como a proveniente dos efeitos da crise pandêmica. Ao contrário, a restrição alimentar deve ser analisada a partir de tendências estruturais que se manifestam nas diversas crises atuais. Relações sintetizadas na discrepância existente entre os avanços tecnológicos que ampliam o potencial humano, acompanhados de crescentes desafios institucionais e ambientais que atingem a escala global.

O primeiro ponto que ressalto se refere aos efeitos oriundos das mudanças climáticas que induzem a redução da produtividade agropecuária. A emergência da crise alimentar acompanha o acirramento dos eventos ambientais extremos, tais como estiagens mais longas e chuvas mais intensas, que atingem, especialmente, as nações tropicais. Essas mesmas regiões, caracterizam-se pela pobreza e a fragilidade institucional, que acirram a ruptura social, via guerras e conflitos políticos. Os países mais desenvolvidos, que contribuem proporcionalmente mais para o aquecimento global, estão comparativamente menos expostos aos eventos extremos e mais capacitados a enfrentá-los. Há nessa relação uma profunda injustiça que amplia a desigualdade planetária entre o Norte rico e o Sul pobre.

O segundo ponto refere-se à descoordenação internacional na adoção de medidas compartilhadas para o enfrentamento da crise alimentar. Os prognósticos indicam que em torno de 800 milhões de seres humanos encontram-se sob níveis elevados de subnutrição. A maior parcela de crianças e jovens, em fase de desenvolvimento neurológico, acarretando o comprometimento em suas habilidades intelectuais futuras. No Brasil, estima-se que 33 milhões de cidadãos passam fome, o dobro do verificado há dez anos. A miséria em escala apocalíptica requer a adoção de medidas emergenciais. Todavia, boas políticas públicas dependem do funcionamento de instituições políticas plurais e democráticas que respondam às demandas sociais de maneira eficiente e rápida. Isso tanto na escala local como na global.

Nesse quesito reside o terceiro ponto. A desestruturação institucional tem reverberação mundial, ocorrendo mesmo em nações desenvolvidas. Isso reflete a flagrante incapacidade de liderança no enfrentamento das diversas crises, tais como a pandemia, as intercorrências na oferta de alimentos, insumos e energia, e os conflitos geopolíticos. De certa forma, a governança democrática está em decadência frente às mídias sociais e às “fake news” que geram discórdias a respeito de temas irrelevantes. A capacidade de coordenação social nessas circunstâncias, oriunda da democracia representativa, tende desarticular-se frente à gravidade dos desafios planetários.

Adicionalmente, há algumas premissas que podem ser esquematizadas, nesse retrato abrangente, para os impactos regionais. Apesar da remissão dessas tendências gerais não ser de escopo local, podem ser estabelecidas ações de mitigação importantes. Ressalto que a produção agropecuária necessita preparar-se para as mudanças climáticas, requerendo planejamento público e privado para a implementação das transformações necessárias. Atualmente, há uma exagerada ênfase na produção de commodities para exportação. Isso indica a necessidade de priorização para a agropecuária de pequena escala, voltada primordialmente à oferta de alimentos localmente. Por outro lado, o próprio modelo agroexportador, baseado na monocultura e na concentração fundiária, precisa migrar para esquemas mais intensivos e diversificados de produção. Os exemplos dos sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta e as práticas agroecológicas e regenerativas de plantio e criação são os caminhos a serem trilhados. Nesse sentido, a dualidade entre o agronegócio e a agricultura familiar deve ser superada; enquanto o gigantesco potencial da bioeconomia urge por ser efetivado na prática. Em síntese, a crise alimentar anuncia a urgência do nascimento de uma “boa nova” global, profundamente sustentável e multilateral, destinada ao enfrentamento das tribulações vindouras.

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo