ECONOMIA

Reflexões sobre a transferência da Maggi

As manchetes catastróficas sempre chamam mais atenção que as reflexões. Por isso muito se tem falado e escrito sobre a transferência do Grupo Maggi para Cuiabá e as suas nefastas conseqüências. Não resta dúvida de que o Grupo é importante para Rondonópolis, o Mato Grosso e para o Brasil. Ninguém seria insano o suficiente para afirmar o contrário.
Mas, passado o compreensível espanto inicial, está na hora de retomar as atividades serenamente. A questão relevante que deve emergir dessa situação é em relação a nossa postura, ou melhor ainda, aos preparativos que a cidade e região pretensamente fez para casos dessa natureza. Ou pensando para frente, como um prognóstico, o que faremos para nos proteger no futuro.
Outros momentos como este, maiores ou menores, deverão vir, no curto ou longo prazo, e é bom que estejamos preparados e estruturados quando e se vier a acontecer.
É importante que comecemos a pensar mais no conjunto e menos nas partes. Parece que estamos mais dedicados em lamentar quando já há pouco por fazer do que em construir oportunidades de forma integrada para nos organizar.
É como perder o emprego quando você não está preparado. Se você for proativo e se antecipar, tanto do ponto de vista econômico quanto em relação a sua empregabilidade, desenvolvendo antecipadamente novas oportunidades, quando o dia chegar, vai haver apreensão, mas a transição será mais tranqüila e sem sobressaltos.
Devemos refletir se a sociedade civil realmente está organizada, preparada e preocupada em enfrentar situações dessa natureza. Se o poder público, em última instância o principal articulador e dinamizador, tem programas contingenciados capazes de reunir a sociedade para atrair investimentos. Ou mesmo a capacidade de criar e negociar alternativas apropriadas para gerar crescimento e desenvolvimento para a cidade.
Devemos lembrar que aqui temos algumas peculiaridades interessantes e casos como a mudança de sede de um grupo econômico importante nos devem fazer refletir sobre as nossas posturas e os arranjos sociais que construímos.
Se analisarmos o país como um todo, temos algumas centenas de municípios que se debatem na ânsia de obter vantagens para gerar crescimento e desenvolvimento, mas o ponto fraco da maioria, ao contrário do que se possa imaginar, não reside na sua localização, na sua capacidade de intervenção, tão pouco na falta de idéias ou projetos, e sim na insistente psicose que é peculiar ao atraso: a falta do sentido coletivo e da cooperação.
Para ser mais direto, quando há uma boa iniciativa todos querem ser o pai da criança. E se não o forem, padrinho não serve. É tudo ou nada, quando na verdade os objetivos de todos deveriam ser um só, o nosso desenvolvimento.
Para exemplificar, temos três times de futebol e somos inaudíveis no cenário nacional (poderíamos ter somente um em que valesse a pena investir tempo, paixão e dinheiro), ainda discutimos se é o time da botina ou do tênis que está no poder e se é o agronegócio ou o setor urbano que coordenam o município.
Somos capazes de afirmar que não precisamos do setor A ou B para crescer, existem várias dezenas de sindicatos, associações de classe de diferentes matizes, partidos políticos diversos e nenhuma universidade local (as reitorias são longe daqui). Todos brigando por migalhas de mídia e poder. No fundo, somos pobres de articulação e tênues em se tratando de sustentabilidade econômica, cultural e social.
Ainda assim temos quase 200 mil habitantes e somos a 2ª economia do Estado. Por quanto tempo não sabemos. Está na hora de pensarmos numa frente de desenvolvimento para a grande Rondonópolis, capaz de criar um auspicioso projeto Regional onde haja clareza de propósitos, sem os resquícios do coronelismo de parte a parte, integrando a sociedade civil organizada, fundindo interesses e unindo-os em torno de objetivos similares.
Se continuarmos do modo como estamos, cresceremos apenas ciclicamente, alternaremos avanços e retrocessos. Dessa maneira continuaremos a temer mudanças empresariais e o desenvolvimento organizado e arrojado de outros municípios e regiões, como está acontecendo hoje.
Veremos outras cidades avançando a passos largos enquanto nos deitamos em berço esplêndido, ancorados em diferenciais de 15 anos atrás, quando a matriz produtiva era outra e os nossos mercados eram pacientes. Deixemos o nosso umbigo um pouco de lado e veremos que há muito por fazer e aproveitar.
A Maggi é importante sim, mas agora não é momento de chorar sobre o leite derramado. É tempo de humildade e estadismo, tanto político como empresarial, para aproveitar as oportunidades diante da crise e arregaçar as mangas, reagindo para que sejamos capazes de nos tornar cada vez mais fortes e integrados.
Rondonópolis, com a sua miscigenação cultural extraordinária, só não alcançará o desenvolvimento que lhe está reservado se perder para si. Quando uma empresa vai, deve ficar conhecimento, ensino e aprendizagem.
(*) Eleri Hamer é consultor e professor universitário/A Tribuna

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