Encontro dos Bric inquieta rotina de Brasília

Pedidos inusitados e sigilo fazem parte do ritmo frenético de trabalho que antecede a realização da cúpula na capital federal
Enquanto dirigentes ilustres se preparam para os debates que produzirão acordos políticos e econômicos durante a Segunda Cúpula do Bric – grupo de países que reúne Brasil, Rússia, Índia e China –, um batalhão de desconhecidos trabalha freneticamente há dias em Brasília.
Nos hotéis que receberão as delegações estrangeiras, gerentes, camareiras e mensageiros se esforçam para atender pedidos mirabolantes e adequar a estrutura dos prédios aos requisitos de segurança dos visitantes. A equipe de cerimonial do Itamaraty também vive dias difíceis. Dois conselheiros vieram do exterior só para ajudar a pequena equipe nos preparativos. Em eventos como esse, nenhum detalhe pode dar errado.
A delegação da China, a mais numerosa, fechou um grande hotel da cidade, o Grand Bittar, onde estão 250 pessoas. Mas não foi suficiente. Outras 60 ficarão em outro hotel. Os chineses exigiram inúmeras adaptações na estrutura dos quartos, cozinha e elevadores. A suíte presidencial, por exemplo, teve a varanda lacrada com uma parece de madeira. Dentro do quarto, não entra luz ou barulho. Como um cofre.
A mesa de escritório precisou ser trocada. Depois de três ou quatro tentativas, a delegação finalmente aceitou a peça adquirida pelo hotel exclusivamente para compor a suíte do presidente chinês Hu Jintao. O chefe de Estado terá uma entrada e corredor privativo para se locomover entre a suíte e as salas de reuniões montadas em diferentes andares do hotel.
Para isso, o elevador de serviço precisou ser reformado. Ganhou papéis de parede, espelhos, teto novo, quadros e, claro, tapete vermelho. Esse é um item, aliás, que será dos mais vistos em todos os ambientes dos encontros do Bric. Hotéis e Itamaraty estão com tapetes vermelhos por todos os lados. Na suíte, quadros e flores também foram dispostos por todos os lados.
Os chineses são super metódicos. Fazem muitas exigências e querem que o serviço seja feito rapidamente. Mas está sendo um grande aprendizado”, afirma o gerente do Grand Bittar, José Ronaldo de Oliveira. Só para atender a delegação, ele contratou cerca de 50 novos funcionários, que se somaram aos outros 80. Equipes chinesas acompanham o trabalho das camareiras e dos cozinheiros.
Essa foi outra exigência feita pela Embaixada da China: que o hotel criasse uma cozinha exclusiva para o presidente. Toda a comida e a água que serão consumidas pelo chefe de Estado serão fornecidas pelo próprio governo chinês. Os cardápios terão pratos brasileiros e chineses e o preparo da comida será acompanhado por um chef que veio com a comitiva.
Outros itens aparentemente menos importantes deram dor de cabeça a Ronaldo. A posição dos telefones nos quartos e nas salas de reuniões precisou ser trocada. Flores amarelas são itens proibidos pelos corredores.
Os russos e os indianos que participarão das reuniões em Brasília, que acontecem até sexta-feira, estão hospedados no mesmo hotel, o Royal Tulip. Sabe-se que as duas delegações somam mais de 400 pessoas, mas os representantes das embaixadas não confirmam números ou pedidos feitos por eles aos hotéis ou governo brasileiro.
Uma comitiva grande – de 60 pessoas aproximadamente – visitou o Grand Bittar para conhecer as instalações onde serão realizadas reuniões particulares entre Hu Jintao e o presidente russo, Dmitri Medvedev. A quantidade aparentemente exagerada só queria garantir a segurança de seu líder.
Um detalhe curioso é que, durante toda a estadia de Medvedev no Brasil, as equipes de segurança precisam garantir que um dispositivo chamado de “adjunto nuclear” esteja sempre próximo do presidente russo. O tal equipamento serve para que o chefe máximo tenha controle sobre o armamento estratégico nuclear russo onde quer que esteja.
Nei Futuro Bitencourt, ministro-conselheiro na Embaixada Brasileira de Maputo, em Moçambique, explica que o governo brasileiro é responsável pela segurança, traslado e hospedagem de todos os chefes de Estado. O restante da delegação está sob a responsabilidade das embaixadas dos próprios países.
A Polícia Federal, as Polícias Civil e Militar do Distrito Federal e o próprio Exército estão envolvidos na operação. Só dentro do Itamaraty, há 150 pessoas cuidando da segurança das delegações. Do lado de fora, outros 200 homens trabalham para garantir a segurança do encontro.
Fonte: IG notícias