CDL não vai se pronunciar, mas presidente diz que listas de boicote são inadequadas

Continuam a circular nas redes sociais listas sugerindo o boicote econômico de empresários e profissionais liberais por conta do posicionamento adotado na eleição presidencial. Casos semelhantes têm ocorrido em várias cidades do país. A prática pode configurar crime e tem sido combatida por muitas entidades que representam o setor empresarial. Em Rondonópolis o presidente da CDL, Thiago Sperança, também criticou a divulgação dessas listas, mas disse que a entidade não se pronunciará oficialmente.
“Como CDL não temos nada a dizer. É uma conversa de grupo (de whatsapp), não causa uma prejudicialidade a nenhuma instituição e para nenhuma pessoa física ou jurídica”, avaliou o empresário.
Falando em seu próprio nome, Thiago Sperança lamentou o episódio. Para ele, esse tipo de atitude é sinal de um extremismo que busca causar divisão social, o que não seria produtivo.
“Pessoalmente não gosto de extremos, acho isso ridículo. Não compactuo, não concordo. A gente é uma sociedade e um depende do outro, independente da classe social. Sempre o da clase A precisa de alguém da classe, B, C. D e E, e vice versa. Então isso é inadequada. Ainda bem que é conversa de whatsapp”, concluiu.
REAÇÕES
A lista de boicote foi publicada em vários grupos de Whatsapp e, em quase todos, tem o mesmo cabeçalho, indicando tratar-se de uma ação coordenada.
O texto sugere que as pessoas excluam ‘os petistas de nossas vidas de vez’ e conclama a inclusão de outros nomes.
“Se vc sabe de algum comércio, colégio…qualquer ramo de atividade que seja petista listem aqui para que não vejam a cor do nosso dinheiro”, diz o texto.
Nos grupos a que a reportagem teve acesso, as pessoas que postaram a lista aparecem várias vezes reforçando a mensagem. Porém, há também reações de integrantes fazendo críticas às tentativas de boicote.
“Eu sou patriota e discordo disso. O nosso dever é conscientizar essas pessoas que estão do lado oposto e não acabar com o seu comércio ou nome”, afirmou um cidadão em um dos grupos onde a lista foi publicada.
Pelo menos três alvos da tal lista já se pronunciaram. Um profissional liberal fez um vídeo pedindo o fim da animosidade. Também houve um comunicado enviado aos pais de alunos de um colégio particular e, ontem, foi divulgada no Facebook uma nota assinada pelos proprietários de um laboratório alvo dos ataques.
“Somos rondonopolitanos e, acima de tudo, brasileiros, e estamos aqui para servir toda a população que necessite dos nossos serviços, com muito amor e respeito, independente de sua religião, raça, classe social ou posição partidária”, diz a nota.
Os atingidos também sinalizam que tomarão as medidas judiciais cabíveis contra os responsáveis pelos ataques.
OUTRAS CIDADES
A divulgação de listas assim não é exclusividade de Rondonópolis. A imprensa noticiou iniciativas semelhantes em Tangará da Serra e Sinop. Já no interior de São Paulo chamaram a atenção movimentos semelhantes nos municípios de Sorocaba e Buri. Nesta segunda cidade entraram na relação até comerciantes que não se posicionaram a favor ou contra os candidatos.
"Tem que passar a lista dos de Buri, porque eles não se demonstraram que era do PT, a gente não sabe", escreveu um morador em um dos grupos retratados em reportagem divulgada pelo site G1.
Em nota, a Associação Comercial, Industrial e Agropecuária de Buri (ACIAB) afirmou que o Brasil vive em uma democracia, e, apesar dos questionamentos, a eleição foi concretizada e definida.
O presidente da ACIAB, Nei Carvalho, lamentou a situação. "Quanto às postagens, acho completamente desnecessárias e sem nexo, lamentável".
Nei reforçou, inclusive, que o comércio depende de todos, independentemente de qualquer ideologia, posição política, religiosa ou filosofia.
Já em Sorocaba ao menos 30 comércios foram listados em grupos bolsonaristas. Nas mensagens, um integrante diz "que peça ajuda para o Lula, né?! Ou fazer o L que melhora".
Outros participantes tentam amenizar a situação. "Vamos respeitar! Cada um tem direito a sua ideologia", escreveu uma moradora.
Por telefone, a Associação Comercial de Porto Feliz disse não ter conhecimento da lista que circula em grupos de mensagens. Também afirmou que nenhum comerciante denunciou a tentativa de boicote.
Eduardo Ramos – Da Redação